Do casamento ao divórcio

Do casamento ao divórcio é um pulo, se você não ficar de olho no que faz ou diz. Qualquer olhar mal-interpretado ou meia-palavra pode e será usado contra você. Depois de uma cagada, faça cara de paisagem. Treine na frente do espelho.

Infelizmente ainda não inventaram uma borracha que apaga da memória da pessoa suas cagadas no passado, portanto a cada discussão prepare-se para o “vale a pena ver de novo”. Tudo começa com “lembra aquela vez que…” e tome lembrança desagradável: “…você passou mal na festa de tanto beber? …me xingou de idiota na frente da minha família? …queimou o jantar romântico que fez pra comemorar nosso aniversário de casamento? …que fez no dia seguinte porque esqueceu da data?”

Você não lembra de nada, eu também não, mas o consorte lembra – e como lembra! Com riqueza de detalhes. E joga tudo na sua cara. Na minha, quero dizer. E vai responder o que? “Sinto muito de novo, pela milésima vez, mas não há nada que eu possa fazer pra consertar essa merda agora”. E adianta?

Então espere a próxima briga, lá vem tudo de novo, com um item a mais: “…você disse que não podia consertar essa merda?” Mantenha a boca fechada, em boca fechada não entra mosca, faz bem pra relação e conserva os dentes.

(zailda coirano)

O segundo passo

Se o casamento é o primeiro passo para o divórcio, sempre achei que o segundo é a intolerância. Quando a relação se desgasta como resultado de muitos problemas sem solução satisfatória, o resultado é que ficamos “por aqui” com o sujeito. A intolerância faz com que qualquer coisa que o outro faça nos deixe loucos de raiva e prontos para mobilizar nossas tropas para destruir o inimigo.

Já vi casais terem discussões de vida ou morte, a ponto de os presentes serem obrigados a intervir, por coisas tão bobas que depois ninguém mais lembraria o que eram. Quando a intolerância se instala um simples olhar pode levar um casal às vias do fato.

Quando estão assim a vida sexual praticamente não existe porque qualquer coisa dita ou mesmo sugerida pode provocar uma crise de raiva no parceiro que encerra a discussão dando as costas para o outro e adeus noite de amor…

Sempre achei que casamentos que duram décadas não são provas de amor e sim exemplo supremo de até onde o ser humano pode ser tolerante. Quando uma relação vale a pena investimos muito nela e a maioria das coisas que não nos agradam relevamos a segundo plano porque “vale a pena”. Quando a contabilidade emocional da relação está no vermelho, com um gráfico que começa em zero descendo para “menos infinito”, qualquer concessão nos parece o fim da picada e claro que não queremos investir mais nada: nem tempo, nem dinheiro, nem emoção, nem tolerância.

Ficamos literalmente “de saco cheio” com o parceiro e a qualquer movimento em falso vamos abatê-lo impiedosamente. Quando a coisa chegou a esse ponto, principalmente se a recíproca for verdadeira, sei não… acho que é hora de ir cantar em outra frequesia…

(zailda coirano)

E cai a máscara

É comum durante o namoro que o futuro casal só se encontre em condições ideais, ou seja, marcam encontros para o qual ambos tomam banho e se produzem. Com o correr do tempo vão se conhecendo melhor e se encontrando em situações do dia-a-dia, até que resolvem se casar.

Quando os dois “jogaram limpo”, ou seja, mostraram-se da forma como realmente são, evitando “fazer tipo” na tentativa de “conquistar” o outro, tudo pode e deve correr bem, mas se por acaso durante o namoro um dos dois ou mesmo ambos assumiram uma postura artificial, o casamento é apenas o início de um pesadelo que pode culminar no divórcio.

Não existem técnicas para se conquistar ou “prender” alguém e vejo em muitas revistas “especializadas” cartas de leitores e leitoras desesperados atrás de conselhos sobre o que fazer para manter ou atrair a atenção do namorado ou namorada. Sempre acreditei que o melhor é cada um ser o que realmente é, mostrar-se inteiro, sem “maquiagens” ou máscaras, porque essas não resistem muito tempo, caem logo nos primeiros dias de convívio.

Meu marido, por exemplo, contou-me que em certa ocasião sua então namorada (e agora ex-mulher) o esperou lendo um livro – e de óculos. Ele estranhou e ela esclareceu que o óculos era “só para leitura”. Tempos depois ele veio a descobrir que ela emprestara tanto um quanto o outro de uma amiga, e em 18 anos de casamento jamais pegou em um livro, a não ser para colocá-lo em seu lugar durante a arrumação da casa.

Para manter a “farsa”, já imaginaram que ela teria que ler (e usar os tais óculos) durante anos a fio? Isso seria humanamente impossível, não é mesmo? Portanto o melhor é cada um se mostrar exatamente como é e se o outro por acaso vier a amá-lo você sempre terá a certeza de que se apaixonou por você, e não pela imagem criada na tentativa de conquista.

(zailda coirano)

Felizes para sempre

Desde crianças nos contavam histórias de amor, enquanto que para os meninos contavam histórias de guerras e lutas. Nas deles, o herói sempre saía vencedor. Nas nossas, a heroína encontrava um príncipe que a amava, com um beijo mudava sua vida levando-a para um castelo, e lá eram felizes para sempre.

Mas espera lá! Isso é educação ou lavagem cerebral? Depois ficamos adultas, casamos e o príncipe depois de uns beijos vira sapo, o castelo junta roupa e louça pra lavar todo dia, vêm os filhos que dão um trabalho danado! E depois ainda dizem que “temos uma visão romântica do casamento”. Mas quem foi que enfiou isso em nossa cabeça? Vai dizer que a culpa é nossa?

Só porque queremos alguém para dividir nossas alegrias, contas e tristezas, que nos ouça e nos respeite, que cuide de nós como cuidamos dele, somos sonhadoras? Será que é pedir demais? E é um pecado imperdoável quando a gente percebe que aquela relação está mais furada que peneira de baiana e cai fora? Será que cair fora é privilégio masculino? Ou será que temos que erguer as mãos para o céu e agradecer por termos encontrado um marido, um homem bondoso que nos livrou da desgraça de virarmos tias solteironas?

Será que temos que aturar chifres e maus-tratos para depois de muitos anos, no caixão cercadas de netos e filhos todos comentarem: “foi uma batalhadora”?

Batalhadora é o escambau! Pois não estamos numa sociedade de consumo? Pois então o consumidor (no caso, consumidora) sempre tem razão. Se depois de alguns anos o príncipe encantado aposentou o cavalo branco e só quer saber de beber cerveja e criar barriga em frente ao jogo de domingo, ele que vá cantar em outra freguesia! Nós é que não vamos nos conformar com menos do que nos foi prometido quando leram aquelas histórias pra gente!

Ah – vão dizer os homens – isso é ficção. Homem perfeito não existe.

E quem é que quer homem perfeito? Só queremos um homem-homem, que nos trate como mulheres e nos aprecie da forma que somos, respeitando as diferenças. Queremos ser amadas e compreendidas. E não fazemos por menos, ora essa!

(zailda coirano)